quinta-feira, 22 de outubro de 2009
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Lost in translation
Se um dia eu for um ditador, a primeira coisa que eu vou fazer é mandar fuzilar todo mundo que trabalha com cartões de crédito.
Tudo começou no final de agosto, quando eu fui num caixa eletrônico aqui nos EUA para sacar um dinheiro da minha conta do Banco do Brasil. Isso é algo que eu já fiz várias vezes, e nunca tive problemas. Infelizmente dessa vez eu dei azar de pegar um caixa eletrônico estragado, que só ficou fazendo uns barulhos de engrenagem e não me deu dinheiro nenhum.
Até aí tudo bem, porque eu fui em outro caixa e consegui fazer o saque. O problema é que quando chequei o extrato, vi que eles tinham feito o débito duas vezes, ou seja, como se o primeiro saque tivesse dado certo. Como é de praxe com qualquer coisa que dá errada no Brasil, minha reação envolveu passar 4h de uma manhã ligando pra 873 números de telefone diferentes. Que eu me lembre, eu liguei para os seguintes números até conseguir falar com uma pessoa razoavelmente racional:
Foi nesse último que eu finalmente consegui que alguém reconhecesse que tinha algo errado. O cara me disse que ia pedir um estorno pro meu cartão de crédito, mas que esse dinheiro só ia entrar na fatura da metade de outubro. Aí eu reclamei que o erro era deles e não era justo eles só me devolverem o dinheiro 2.5 meses depois, e o cara disse:
- Ah, ok, sem problemas. Então eu peço para fazerem o estorno pra tua conta nos próximos dois dias úteis.
WHAT THE FUCK? Porque a opção de devolver o dinheiro na hora só veio depois da opção de me roubarem por mais dois meses?
De qualquer forma, hoje chequei o extrato e eles me devolveram MENOS do que roubaram. Aí de novo fiquei ligando pra todos aqueles números, em looping, sendo jogado dum lado pro outro. Enfim eu consegui falar com alguém que aparentemente sabia o que estava acontecendo, mas depois ficou óbvio que ela era só mais uma representante do nível mais avançado de pessoas especializadas em confusão mental extrema. A conversa foi mais ou menos assim:
- Bom dia, em que posso ajudar?
- Vocês roubaram meu dinheiro, seus filhos da puta.
- Ok, senhor.
- Então me devolvam!
- Senhor, aqui consta que já foi feito um estorno.
- Eu sei, mas vocês devolveram menos do que roubaram.
- Bem, a diferença se deve a uma variação na taxa de câmbio, senhor.
- Não me importa a razão porque vocês roubaram. Eu quero o resto do meu dinheiro, motherfucker.
- Senhor, o problema é do módulo bancário
- O que é um módulo bancário?
- É o setor que causou o problema.
- Mas quem pediu o estorno foram vocês.
- Correto senhor, nós somos uma parte do setor do módulo bancário
- Então vocês podem resolver o problema
- Não, senhor. Você precisa entrar em contato com o setor bancário
- Setor bancário? Setor e módulo são a mesma coisa?
- Correto, senhor
- ......
- Algo mais em que posso ajudá-lo, senhor?
- Algo mais? Vocês não me ajudaram em nada, até agora.
- Sim, senhor. Como eu disse, o problema se deve a um erro de um módulo de sua agência.
- O que diabos é um módulo bancário?? O que a minha agência tem a ver com isso? Vocês são o módulo bancário?!?!?!
- SENHOR, o senhor pode ligar pra ouvidoria caso não esteja satisfeito com minhas informações
- Eu já liguei pra ouvidoria. Eu só quero saber o que é o módulo bancário!
- No caso, senhor, é o setor que efetua a correção dos problemas
- Mas foram vocês que efetuaram o estorno, logo foram vocês que efetuaram a correção do problema.
- Correto senhor, o estorno já foi realizado. Deseja anotar o protocolo?
- Vocês não me devolveram todo o dinheiro! Eu quero falar com o módulo bancário. Tu é o módulo bancário?
- Correto senhor, mas nós não fazemos parte desse setor de sua agência.
Nessa hora eu desisti completamente de me comunicar, porque aparentemente as regras normais de lógica não faziam mais o menor sentido. No final das contas, ela disse pra eu ligar pro módulo bancário do Banco do Brasil, e me deu o mesmo número de telefone que eu liguei quando falei com ela.
Tudo começou no final de agosto, quando eu fui num caixa eletrônico aqui nos EUA para sacar um dinheiro da minha conta do Banco do Brasil. Isso é algo que eu já fiz várias vezes, e nunca tive problemas. Infelizmente dessa vez eu dei azar de pegar um caixa eletrônico estragado, que só ficou fazendo uns barulhos de engrenagem e não me deu dinheiro nenhum.
Até aí tudo bem, porque eu fui em outro caixa e consegui fazer o saque. O problema é que quando chequei o extrato, vi que eles tinham feito o débito duas vezes, ou seja, como se o primeiro saque tivesse dado certo. Como é de praxe com qualquer coisa que dá errada no Brasil, minha reação envolveu passar 4h de uma manhã ligando pra 873 números de telefone diferentes. Que eu me lembre, eu liguei para os seguintes números até conseguir falar com uma pessoa razoavelmente racional:
- Bank of America
- Setor de cartões de crédito do Bank of America
- Minha agência do Banco do Brasil em Porto Alegre
- VISA, em São Paulo
- Atendimento do BB para quem mora no exterior
- Central de Atendimento do BB para quem mora no Brasil
- Setor de crédito do BB junto a Embratel (sério, eu não tenho idéia do que isso significa, mas sei que uma hora me transferiram pra esse número)
- MasterCard (nota: meu cartão é VISA, mas o pessoal do BB me transferiu também pra MasterCard numa tentativa de me deixar louco)
- Setor de atendimento do BB para quem mora no exterior, mas num número local de Brasília
Foi nesse último que eu finalmente consegui que alguém reconhecesse que tinha algo errado. O cara me disse que ia pedir um estorno pro meu cartão de crédito, mas que esse dinheiro só ia entrar na fatura da metade de outubro. Aí eu reclamei que o erro era deles e não era justo eles só me devolverem o dinheiro 2.5 meses depois, e o cara disse:
- Ah, ok, sem problemas. Então eu peço para fazerem o estorno pra tua conta nos próximos dois dias úteis.
WHAT THE FUCK? Porque a opção de devolver o dinheiro na hora só veio depois da opção de me roubarem por mais dois meses?
De qualquer forma, hoje chequei o extrato e eles me devolveram MENOS do que roubaram. Aí de novo fiquei ligando pra todos aqueles números, em looping, sendo jogado dum lado pro outro. Enfim eu consegui falar com alguém que aparentemente sabia o que estava acontecendo, mas depois ficou óbvio que ela era só mais uma representante do nível mais avançado de pessoas especializadas em confusão mental extrema. A conversa foi mais ou menos assim:
- Bom dia, em que posso ajudar?
- Vocês roubaram meu dinheiro, seus filhos da puta.
- Ok, senhor.
- Então me devolvam!
- Senhor, aqui consta que já foi feito um estorno.
- Eu sei, mas vocês devolveram menos do que roubaram.
- Bem, a diferença se deve a uma variação na taxa de câmbio, senhor.
- Não me importa a razão porque vocês roubaram. Eu quero o resto do meu dinheiro, motherfucker.
- Senhor, o problema é do módulo bancário
- O que é um módulo bancário?
- É o setor que causou o problema.
- Mas quem pediu o estorno foram vocês.
- Correto senhor, nós somos uma parte do setor do módulo bancário
- Então vocês podem resolver o problema
- Não, senhor. Você precisa entrar em contato com o setor bancário
- Setor bancário? Setor e módulo são a mesma coisa?
- Correto, senhor
- ......
- Algo mais em que posso ajudá-lo, senhor?
- Algo mais? Vocês não me ajudaram em nada, até agora.
- Sim, senhor. Como eu disse, o problema se deve a um erro de um módulo de sua agência.
- O que diabos é um módulo bancário?? O que a minha agência tem a ver com isso? Vocês são o módulo bancário?!?!?!
- SENHOR, o senhor pode ligar pra ouvidoria caso não esteja satisfeito com minhas informações
- Eu já liguei pra ouvidoria. Eu só quero saber o que é o módulo bancário!
- No caso, senhor, é o setor que efetua a correção dos problemas
- Mas foram vocês que efetuaram o estorno, logo foram vocês que efetuaram a correção do problema.
- Correto senhor, o estorno já foi realizado. Deseja anotar o protocolo?
- Vocês não me devolveram todo o dinheiro! Eu quero falar com o módulo bancário. Tu é o módulo bancário?
- Correto senhor, mas nós não fazemos parte desse setor de sua agência.
Nessa hora eu desisti completamente de me comunicar, porque aparentemente as regras normais de lógica não faziam mais o menor sentido. No final das contas, ela disse pra eu ligar pro módulo bancário do Banco do Brasil, e me deu o mesmo número de telefone que eu liguei quando falei com ela.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
sexta-feira, 6 de março de 2009
A Igreja e o aborto

Hoje eu estava lendo sobre aquele caso da guria de 9 anos que foi estuprada pelo padastro e que ficou grávida de gêmeos. A guria abortou, por razões óbvias, e a Igreja católica então decidiu que única coisa lógica a fazer era excomungar todos os médicos envolvidos, e a mãe da guria. Aí um monte de gente ficou tri indignada com a Igreja, dizendo que era um absurdo eles excomungarem todas essas pessoas. Sinceramente, eu não vejo como isso poderia ser um absurdo. Eu acho que a Igreja fez exatamente o que tinha que fazer.
Isso não significa, é claro, que eu concorde com a Igreja. O meu ponto é que pelo menos eles tão sendo coerentes com a loucura deles. Cada religião tem seu próprio sistema esquizofrênico de crenças. A Igreja católica não é diferente. Eles partem do pressuposto de que uma célula fertilizada possui uma alma imortal indetectável soprada por um Ser invisível que criou o Universo, e que esse Deus invisível gosta de ouvir os teus pensamentos durante a noite, e que por alguma razão Ele também não gosta muito que as pessoas colham gravetos no sábado. Essa é uma suposição maluca, é claro. Mas enfim, foi esse o caminho através do qual os católicos (ou pelo menos os católicos de verdade) decidiram tentar entender o universo. Ou seja, através de uma compilação de contos encontrados em pergaminhos de 2.000 anos de idade, escritos por monges bêbados do deserto que gostavam de apedrejar suas mulheres. Enfim, cada um tenta entender o mundo da maneira que achar mais apropriada.
Dito isso, todo mundo sabe que todas as religiões, por definição, funcionam baseadas em dogmas, ou seja, conjuntos de suposições malucas e incompreensíveis nas quais tu precisa acreditar, senão o teu Deus vai ficar muito, mas muito chateado. Portanto, justamente por funcionarem baseadas em dogmas, não é justo esperar que nenhuma religião que se dê o mínimo de respeito tenha a obrigação de ficar ouvindo a opinião das pessoas, e muito menos mudando suas crenças para agradar essas pessoas. Quem realmente acha possível encontrar uma religião que fique corrigindo os seus próprios erros, e que esteja disposta a mudar de idéia face a novas evidências, obviamente não entendeu a idéia do que é uma religião. Uma religião por definição envolve fé, dogmas, e idéias idiotas imutáveis. Ou tu gosta e aceita ela como ela é, ou tu procura outra, ou tu inventa a tua própria.
Uma das coisas que eu mais ouço as pessoas dizendo é como a religião é necessária pra ditar a moral, e como é difícil entender como qualquer pessoa que não acredite em Deus (justamente por não acreditar em Deus) poderia sequer ter uma moral. Mas peraí! Essas mesmas pessoas agora estão me dizendo que elas não concordam com a Igreja, e que querem que a Igreja (a suposta a fonte de toda a moral) mude com base no que elas acham correto! Isso significa que, seja lá de onde é que vieram os princípios morais dessas pessoas, certamente não foi da Igreja, e nem da religião! É engraçado como essas pessoas não percebem que são elas quem escolhem quais partes da Bíblia, ou das religiões de forma geral, elas vão seguir. Ou seja, se essas pessoas já possuem um critério para distiguir o que é certo e o que é errado na Bíblia (dica: mandar ursos comerem crianças é errado; derreter o rosto de pessoas é errado) então a moral que elas usam nesses julgamentos não veio da religião!
Aliás, falando em questões morais, isso me lembra toda aquela discussão sobre o Velho Testemento versus o Novo Testamento. No Velho Testamento, Deus era um monstro psicótico que botava fogo nas pessoas, mandava estuprarem vilas inteiras e matar bebês. Aí no Novo Testamento, tudo ficou lindo e rosa e Jesus veio morrer por nossos pecados e tudo ficou bem. Tipo nos programas da Oprah. Querem saber do que mais? Fuck this! Eu gosto mesmo é do Velho Testamento. O Deus do Velho Testamento, o Javé, não era que nem aquela bichinha do Jesus, que ficava oferecendo a outra face. Não. Com o Javé não tinha discussão. Se ele não ia com a tua cara, ele não tentava discutir o assunto contigo numa boa. Ele logo pensava:
-- "Humm.. essa pessoa é meio esquisita. Eu acho que vou jogar uma TEMPESTADE DE ENXOFRE DERRETIDO NELA!"
E aí se logo em seguida tu não oferecesse o teu filho pra ser morto e a tua filha pra ser vendida pra um egípcio, ele também jogava uma tempestade de enxofre derretido na tua família. Isso sim é que era Deus! É exatamente assim que eu agiria se eu fosse um Deus; nada de ficar conversando com essas pessoinhas insignificantes.
Em outras palavras, Deus que é Deus não fica preocupado com esses moralistas fedorentos que se ofendem só porque Ele mandou estuprar a tua mulher e destruir a tua cidade. Afinal, tu comeu porco no dia proibido! Ele tinha explicitamente te dito pra não comer porco na dia proibido! Tu queria que ele reagisse como?
A conclusão disso tudo é que esses "católicos não-praticamentes" (whatever that means) e pessoas religiosas que ficaram ofendidas com a Igreja, essas pessoas precisam calar a boca e deixarem de ser frescas. Porque essas pessoas obrigatoriamente se encaixam em uma dessas duas categorias:
1) elas podem ser ser do tipo que finalmente aceitou que a moral delas não vem dessa religião (e nem de nenhuma outra), e que é possível, sim, serem boas umas com as outras só porque isso é legal. A primeira vantagem disso é que elas não precisam mais fingir que a Bíblia é linda, ao mesmo tempo em que ignoram todas as partes horrorosas em que Deus é um maníaco fora de controle. Outra vantagem é que elas não precisam mais serem constrangidas a terem que acreditar, por tabela, em dilúvios, cobras falantes, virgens tendo filhos mágicos, e mortos ressuscitando e voando em direção ao céu;
A conclusão disso tudo é que esses "católicos não-praticamentes" (whatever that means) e pessoas religiosas que ficaram ofendidas com a Igreja, essas pessoas precisam calar a boca e deixarem de ser frescas. Porque essas pessoas obrigatoriamente se encaixam em uma dessas duas categorias:
1) elas podem ser ser do tipo que finalmente aceitou que a moral delas não vem dessa religião (e nem de nenhuma outra), e que é possível, sim, serem boas umas com as outras só porque isso é legal. A primeira vantagem disso é que elas não precisam mais fingir que a Bíblia é linda, ao mesmo tempo em que ignoram todas as partes horrorosas em que Deus é um maníaco fora de controle. Outra vantagem é que elas não precisam mais serem constrangidas a terem que acreditar, por tabela, em dilúvios, cobras falantes, virgens tendo filhos mágicos, e mortos ressuscitando e voando em direção ao céu;
2) ou então as pessoas podem ser do tipo que ainda quer se dizer católico, mas que por alguma razão acha o maior absurdo do mundo o tal padre estar sendo coerente com um dos princípios morais fundamentais do catolicismo, isto é, o de que o aborto é fundamentalmente errado. A única solução para essas pessoas é começarem a seguir a Bíblia a risca. Tudinho. Apedrejar mulheres, matar crianças, jogar pestes em outros povos, deixar pessoas feias morrerem de fome, etc. Caso contrário, mesmo que essas pessoas eventualmente conseguissem convencer Jesus (o gayzão) a gostar delas -- afinal, elas doaram R$10 para o Criança Esperança!, no primeiro momento em que Ele se distraísse, o Javé sairia de trás de uma moita e ordenaria que um anjo de fogo arrancasse os olhos de todas crianças da cidade. Por quê? Porque sim, ué! Deus escreve certo em linhas tortas! Agradeçam e tenham fé de que Deus sabe o que está fazendo. Só não se esqueçam: acima de tudo, Deus ama a todos vocês e é infinitamente misericordioso! Amém.
ps: Engraçado. Acabei de achar por acaso um cara aleatório que disse praticamente a mesma coisa que eu. A página dele tá aqui.
ps: Engraçado. Acabei de achar por acaso um cara aleatório que disse praticamente a mesma coisa que eu. A página dele tá aqui.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
O problema da religião...
... é que ela faz as pessoas ficarem burras.
Assim que der, eu fujo pra Marte.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Um sessão de cinema do barulho
Ontem a noite eu fui assistir ao filme The Uninvited, ali no shopping. Os meus planos originais, na verdade, eram de assistir a outro filme, o Milk, lá no Amherst Cinema. Infelizmente, quando cheguei lá, percebi que os ingressos já estavam esgotados. Aí então eu caminhei até a frente dos correios para pegar um ônibus de volta até o shopping, esperando ter sorte de conseguir chegar lá a tempo de uma sessão qualquer que começasse por volta das 22h. Tive sorte, porque cheguei no shopping exatamente 10 minutos antes de começar a última sessão desse outro filme, o The Uninvited. Eu sabia, por essa ser a última sessão do Cinemark, que o filme iria terminar relativamente tarde, em torno das 00:10, mas também sabia que haveria um ônibus de volta logo em seguida, então não deveria haver grandes problemas.
Até aí tudo bem. O filme até que foi bem legalzinho, com bons momentos de tensão e um final interessante. Bom, depois de terminado o filme, comecei a caminhar de volta para parada para esperar o ônibus da 00:20. Normalmente, logo antes de passar o ônibus que eu pego de volta para a UMass, passa um outro na direção contrária, isto é, indo para Northampton. Esse ônibus, especialmente nas noites de finais de semana, está sempre cheio, já que em Northampton têm vários bares populares para os quais todo mundo gosta de ir. Por isso, e também porque o shopping já está fechado nesse horário, normalmente ninguém que está indo na direção de Northampton costuma descer na parada onde eu estava.
Claro que não foi isso o que aconteceu. Estava lá eu, sozinho, na parada, esperando o ônibus. Acho que todo o resto das pessoas ricas e burguesas que estavam na sessão comigo possuíam um carro. Eu comecei a pensar sobre isso, sobre o quanto eu odeio essas pessoas, e sobre o quanto eu quero que elas morram lentamente, ou que ao menos elas espontaneamente me doem dinheiro para que eu possa comprar o meu carros dos sonhos. Foi nesse meio tempo de pensamentos de ódio que chegou o outro ônibus, o que estava indo para Northampton. Aí dele desceu uma única guria, claramente bêbada, já com graves dificuldades para caminhar, se concentrando fortemente para não cair e acho também que para não vomitar. O ônibus dela foi embora e ficamos só nós dois na parada.
Ela desceu do ônibus e ficou de pé, com os braços bem duros ao longo do corpo, tentando não se mexer muito, com aquele jeito típico de quem está bêbado mas se esforçando ao máximo para não demonstrar. Depois de um breve momento de estabilidade, ela então começou a oscilar para frente e para trás, e depois para a esquerda e para a direita. De vez em quando ela oscilava demais em uma dessas direções, quase caía, mas aí no último momento ela dava um passo para compensar e conseguia voltar para onde estava antes, e o processo recomeçava do zero. Eu pensei: "Certamente é só uma questão de tempo até essa guria cair de boca e quebrar os dentes na calçada, vomitar em mim, ou fazer alguma outra coisa igualmente estúpida".
A guria continuou oscilando para os lados, oscilando para frente a para trás, etc, quando daí uma hora, do nada, ela oscilou um pouco mais na minha direção, se virou de frente pra mim, abaixou as calças e as calcinhas até o chão, e ficou me olhando tri séria por tipo uns dois segundos, mas que na minha mente duraram aproximadamente umas 7 horas e meia, e agora, totalmente pelada da cintura pra baixo, vestindo um casacão de neve, ficou me olhando tri séria. Notem que essa cena estava acontecendo numa parada de ônibus no meio do shopping, agora já deserto, entre uma loja de departamentos, um Walmart e um McDonalds.
Aí eu pensei:
-- "Hummm... ok. Isso sim foi inesperado."
Aí de repente ela começou a caminhar de costas, quase tropeçando nas próprias calças, dando ré em direção a um montinho de neve que tinha do lado da parada. Chegando lá, se agachou e começou a fazer xixi, bem séria, me olhando de vez em quando, como se não nada de muito estranho estivesse acontecendo. Felizmente, nesse meio tempo o meu ônibus chegou e eu fui embora.
Olha, já me aconteceram muitas coisas bizarras depois que eu cheguei aqui nos EUA, mas isso de eu estar esperando o ônibus, uma guria se virar para mim, abaixar as calças e ficar pelada, isso eu posso sinceramente dizer que foi a primeira vez.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Como iniciar o seu dia da maneira certa
Puta que pariu. Eu odeio neve.
Ontem de noite todos os noticiários estavam emitindo avisos de tempestade de neve para hoje, com previsão de começar às 4 da manhã e só terminar lá pelo final da tarde. Embora eu odeie neve, eu pensei: "Ótimo! Então pode ser que fechem a UMass e que eu consiga escapar da aula bizarra. Beleza!"
Depois de uns poucos minutos, cheguei na UMass e comecei a caminhar em direção ao meu prédio. Chegando lá, percebi que a porta principal estava trancada. "Sem problemas", eu pensei, "vou usar o meu cartão magnético, fazer a volta no prédio, e entrar pela porta do depósito de carga". Fiz a volta, abri a tal da porta, entrei, deixei o casaco e a minha mochila no laboratório, e desci para a sala de aula. Nesse meio tempo, estranhei um pouco que o prédio da computação já não estivesse completamente cheio de chineses. Como todos sabem, os chineses costumam morar dentro dos seus respectivos laboratórios. Os chineses que não moram nos seus laboratórios compensam chegando para trabalhar nuns horários esdrúxulos, tipo às 5 da manhã. De qualquer forma, por todas essas razões, estranhei o fato de que os chineses já não estivessem povoando a UMass toda.
Ontem de noite todos os noticiários estavam emitindo avisos de tempestade de neve para hoje, com previsão de começar às 4 da manhã e só terminar lá pelo final da tarde. Embora eu odeie neve, eu pensei: "Ótimo! Então pode ser que fechem a UMass e que eu consiga escapar da aula bizarra. Beleza!"
Então hoje eu acordei às 6 da manhã, levantei, e antes de fazer qualquer outra coisa decidi checar o site da UMass para ver se haviam mesmo fechado o campus. Como não havia nenhum aviso, abri a persiana e olhei pela janela. Vi que devia ter apenas uns 4cm de neve acumulada, o que realmente não era tão ruim assim, e por isso assumi que provavelmente tudo estaria funcionando normalmente. De qualquer forma, por via das dúvidas, liguei pra PVTA (a empresa que faz o transporte público aqui dessa região) e confirmei que os ônibus estariam rodando normalmente. Depois disso, tomei café da manhã, fui para a parada e peguei o ônibus. Estranhei um pouco o fato do ônibus estar totalmente vazio, mas pensei que deveria ser apenas porque um monte de gente havia decidido matar aula.
Depois de uns poucos minutos, cheguei na UMass e comecei a caminhar em direção ao meu prédio. Chegando lá, percebi que a porta principal estava trancada. "Sem problemas", eu pensei, "vou usar o meu cartão magnético, fazer a volta no prédio, e entrar pela porta do depósito de carga". Fiz a volta, abri a tal da porta, entrei, deixei o casaco e a minha mochila no laboratório, e desci para a sala de aula. Nesse meio tempo, estranhei um pouco que o prédio da computação já não estivesse completamente cheio de chineses. Como todos sabem, os chineses costumam morar dentro dos seus respectivos laboratórios. Os chineses que não moram nos seus laboratórios compensam chegando para trabalhar nuns horários esdrúxulos, tipo às 5 da manhã. De qualquer forma, por todas essas razões, estranhei o fato de que os chineses já não estivessem povoando a UMass toda.
Bom, mas deixei isso de lado e continuei descendo em direção à minha sala de aula, esperando vivenciar mais uma seqüência surreal de emoções e surpresas com o tal do professor sinistro. Cheguei na frente da sala e percebi que não só a porta estava trancada, como todas luzes de dentro estavam apagadas. Aí olhei em volta e me dei conta de que na verdade todo o prédio da computação estava com as luzes apagadas. Aí pensei: "Puta que pariu! Bom, então parece mesmo que não vai ter aula. Ok, sem problemas, vou voltar para o laboratório e trabalhar um pouco. Ao menos não vou ter que ficar lendo poemas nem fazendo exercícios de meditação".
Bom, antes de eu continuar contando o que aconteceu em seguida, acho importante fazer um parênteses. Para quem já conhece os EUA, é um fato sabido que os americanos adoram portas. Eles adoram portas, e instalam portas sempre que podem. Eles colocam portas entre todas as partes possíveis de um prédio, e instalam portas em quaisquer lugares onde seja fisicamente possível prender um pedaço de ferro com duas dobradiças. Por exemplo: para chegar da rua até o meu laboratório, eu posso ter que destrancar até 5 portas com meu cartão magnético, sem contar todas as portas internas pelas quais eu tenho que passar, mas que, embora fechadas, geralmente não estão trancadas. Existem várias razões para os americanos gostarem tanto de portas. A primeira razão é que eles são completamente loucos. A segunda razão é que portas duplas até que são uma boa idéia quando se vive num lugar onde costuma nevar muito, ou onde o inverno é duas vezes mais frio do que o freezer da sua casa (como no Massachusetts). Pois então. Nesse lugares agradáveis, de clima ameno, portas duplas até que são uma boa idéia, porque evitam com que o frio e a neve entrem no prédio sempre que alguém abre a porta externa. Assim, quando alguém entra no prédio, o frio e a neve ficam confinados entre as tais portas duplas e não afetam quem já está do lado de dentro. De qualquer forma, desconsiderando-se essas portas duplas, a grande maioria do resto das portas que existem aqui são totalmente inúteis, e muitas delas ficam trancadas.
Bom, tendo dito isso, vamos continuar com a história. Eu, depois de confirmar que realmente não haveria aula, e que agora me encontrava preso num corredor escuro sem nada mais para fazer, decidi que o melhor então era voltar para o laboratório. Caminhei até a porta que dá acesso ao hall principal do prédio, mas quando fui destrancá-la percebi que havia esquecido a minha carteira (e consequentemente o cartão magnético que destranca todas as portas) dentro da minha mochila. Droga! Eu tinha acabado de conseguir me trancar no corredor de salas de aula, com todas as luzes apagadas, sem ter como voltar!
Bom, antes de eu continuar contando o que aconteceu em seguida, acho importante fazer um parênteses. Para quem já conhece os EUA, é um fato sabido que os americanos adoram portas. Eles adoram portas, e instalam portas sempre que podem. Eles colocam portas entre todas as partes possíveis de um prédio, e instalam portas em quaisquer lugares onde seja fisicamente possível prender um pedaço de ferro com duas dobradiças. Por exemplo: para chegar da rua até o meu laboratório, eu posso ter que destrancar até 5 portas com meu cartão magnético, sem contar todas as portas internas pelas quais eu tenho que passar, mas que, embora fechadas, geralmente não estão trancadas. Existem várias razões para os americanos gostarem tanto de portas. A primeira razão é que eles são completamente loucos. A segunda razão é que portas duplas até que são uma boa idéia quando se vive num lugar onde costuma nevar muito, ou onde o inverno é duas vezes mais frio do que o freezer da sua casa (como no Massachusetts). Pois então. Nesse lugares agradáveis, de clima ameno, portas duplas até que são uma boa idéia, porque evitam com que o frio e a neve entrem no prédio sempre que alguém abre a porta externa. Assim, quando alguém entra no prédio, o frio e a neve ficam confinados entre as tais portas duplas e não afetam quem já está do lado de dentro. De qualquer forma, desconsiderando-se essas portas duplas, a grande maioria do resto das portas que existem aqui são totalmente inúteis, e muitas delas ficam trancadas.
Bom, tendo dito isso, vamos continuar com a história. Eu, depois de confirmar que realmente não haveria aula, e que agora me encontrava preso num corredor escuro sem nada mais para fazer, decidi que o melhor então era voltar para o laboratório. Caminhei até a porta que dá acesso ao hall principal do prédio, mas quando fui destrancá-la percebi que havia esquecido a minha carteira (e consequentemente o cartão magnético que destranca todas as portas) dentro da minha mochila. Droga! Eu tinha acabado de conseguir me trancar no corredor de salas de aula, com todas as luzes apagadas, sem ter como voltar!
Aí nisso eu olho pelo vidrinho da porta interna e vejo um chinês caminhando feliz em direção ao banheiro. Bati no vidrinho, abanei freneticamente e disse:
-- "Chinês, me tira daqui!"
Aí o que ele fez? Virou pra mim, sorriu, abanou de volta, e foi embora.
Bom, agora então eu estava trancado num corredor escuro, e não tinha como voltar para dentro do prédio. Como eu já tinha certeza de que o campus da UMass estava totalmente fechado, as chances de mais alguém chegar no prédio eram quase nulas. Para piorar, a parte do prédio onde eu estava era justamente virada para a porta principal, a qual, se vocês ainda se lembram, estava trancada. Ou seja, mesmo que alguém eventualmente chegasse no prédio, certamente teria que fazer a volta para entrar pela porta lateral e não me veria preso ali.
Nesse meio tempo, decidi virar para o outro lado e olhar para a rua. Aí vi um outro chinês saindo do seu carro e caminhando em direção ao meu prédio. "Beleza!", eu pensei. "Esse chinês está vindo para cá e vai me salvar!"
-- "Chinês, me tira daqui!"
Aí o que ele fez? Virou pra mim, sorriu, abanou de volta, e foi embora.
Bom, agora então eu estava trancado num corredor escuro, e não tinha como voltar para dentro do prédio. Como eu já tinha certeza de que o campus da UMass estava totalmente fechado, as chances de mais alguém chegar no prédio eram quase nulas. Para piorar, a parte do prédio onde eu estava era justamente virada para a porta principal, a qual, se vocês ainda se lembram, estava trancada. Ou seja, mesmo que alguém eventualmente chegasse no prédio, certamente teria que fazer a volta para entrar pela porta lateral e não me veria preso ali.
Nesse meio tempo, decidi virar para o outro lado e olhar para a rua. Aí vi um outro chinês saindo do seu carro e caminhando em direção ao meu prédio. "Beleza!", eu pensei. "Esse chinês está vindo para cá e vai me salvar!"
Como não queria arriscar não ser entendido de novo, comecei rapidamente a planejar qual seria a minha estratégia. "Bom, agora que esse chinês está vindo me resgatar, o melhor a fazer é eu sair daqui do corredor e ficar esperando por ele ali entre as portas duplas. Assim, quando ele se virar na minha direção, eu posso abrir a porta externa e gritar pra ele. Ao mesmo tempo, vou poder ficar segurando essa porta externa, para que ela não se feche atrás de mim. Desse jeito, mesmo que o chinês não me ouça, ainda assim eu vou conseguir voltar para dentro do prédio".
Nisso o chinês já tinha saído do carro e estava caminhando da minha direção. Estava caminhando, caminhando, daquele jeito lerdo que os chineses caminham, quando daí, do nada, do meio da fucking tempestade de neve, surge uma chinesa maluca fazendo jogging, abanando como uma louca para ele com as duas mãos, correndo e gritando alguma coisa. Ele olhou pra ela, começou a abanar de volta com as duas mãos, e eles ficaram assim, abanando um para o outro, com as duas mãos, durante os 10 segundos durante os quais a tal chinesa doente mental estava correndo em direção a ele. Então, quando finalmente eles pararam de se abanar mutuamente como idiotas, eles começaram a bater papo, no meio da tempestade, como se fosse a coisa mais normal do mundo! "Chinês puto!", eu pensei. "Pára com essa frescura e vem aqui me resgatar, seu filho da puta!" Não adiantou. A chinesa deve ter dito algo como "hey baby, vamos para o meu apartamento comer noodles com meus 8 filhos, meus pais e minha sogra". Acho que funcionou , porque o chinês parou na metade do caminho, fez a volta e os dois entraram no carro dele. Merda de chinês filho da puta.
Nisso o chinês já tinha saído do carro e estava caminhando da minha direção. Estava caminhando, caminhando, daquele jeito lerdo que os chineses caminham, quando daí, do nada, do meio da fucking tempestade de neve, surge uma chinesa maluca fazendo jogging, abanando como uma louca para ele com as duas mãos, correndo e gritando alguma coisa. Ele olhou pra ela, começou a abanar de volta com as duas mãos, e eles ficaram assim, abanando um para o outro, com as duas mãos, durante os 10 segundos durante os quais a tal chinesa doente mental estava correndo em direção a ele. Então, quando finalmente eles pararam de se abanar mutuamente como idiotas, eles começaram a bater papo, no meio da tempestade, como se fosse a coisa mais normal do mundo! "Chinês puto!", eu pensei. "Pára com essa frescura e vem aqui me resgatar, seu filho da puta!" Não adiantou. A chinesa deve ter dito algo como "hey baby, vamos para o meu apartamento comer noodles com meus 8 filhos, meus pais e minha sogra". Acho que funcionou , porque o chinês parou na metade do caminho, fez a volta e os dois entraram no carro dele. Merda de chinês filho da puta.
Bom, nesse meio tempo eu ainda estava parado entre as portas duplas, segurando a porta externa, porque sou muito esperto, quando então decidi que o melhor a fazer era voltar para dentro do prédio. Entretanto, quando eu fui abrir a porta interna, percebi que a obsessão do americanos por criar novas portas havia se manifestado, e que agora eles haviam adicionado uma nova fechadura, que antes não existia, à porta interna, e que agora essa porta interna também estava trancada. Ou seja, eu tinha acabado de conseguir progressivamente me jogar para fora do meu próprio prédio, em direção à rua, e agora estava preso entre as portas duplas sem nenhum lugar para onde ir. Quer dizer, eu ainda poderia fugir para rua, mas isso não me parecia uma boa idéa, uma vez que eu estava sem casaco, sem carteira, sem a chave de casa e sem o celular.
Bom, mas nisso eu vejo um outro chinês chegando no prédio! "Feito! Embora os dois chineses anteriores tenham me decepcionado, esse certamente vai vir aqui me salvar!" O tal do chinês saiu do carro dele e começou a caminhar em direção à porta onde eu estava. Ele estava caminhando, caminhando, da mesma forma como o outro chinês fazia, antes de encontrar sua amiga débil mental, quando daí, no último momento, ele fez uma curva e começou a correr rapidamente em direçao à porta lateral do prédio. Caralho, chinês maldito! Nessa hora eu pensei: "Bom, é agora ou nunca! Eu preciso sair e alcançar ele!" Aí eu abri a porta externa e saí correndo pela rua, na tempestade, sem casaco, com um caderno na mão, tentando não cair, abanando com as duas mãos, chinese style, e gritando de longe:
-- "Chinês, me espera! Eu quero entrar contigo aí por essa porta!"
Aí o chinês olhou pra trás, me viu abanando, e adivinha o que fez? Me abanou de volta e entrou no prédio. PUTA QUE PARIU. Qual o problema com esse povo?! Sério, eu podia estar pegando fogo, em chamas, gritando pra ele me ajudar, e ele ainda assim ia achar que eu só estava cumprimentando ele, ia me abanar e depois ir embora. Povo do inferno.
Bom, então agora eu tinha acabado de conseguir a façanha de me jogar totalmente para fora do prédio, para o meio da tempestade, sem nenhuma perspectiva de conseguir voltar. Fiquei encostado do lado da porta de fora, na neve, em torno de uns 30 minutos.
Eu já estava comecando a morrer quando pensei: "Rá! Já sei! Vou fazer a volta no prédio e ver se eu enxergo alguém trabalhando no primeiro andar. Aí eu só precisarei bater na janela e pedir para eles virem me salvar".
Fiz a volta e, logo na segunda janela, dentro de um dos laboratórios, consegui enxergar um vulto se mexendo. Ótimo! Agora eu só precisava conseguir bater na janela e chamar a tal da pessoa. Infelizmente, entre a janela e a calçada existiam muitos arbustos, sim, porque os americanos adoram colocar arbustos em tudo quanto é canto, e por esse motivo eu tive que escalar uns matos e uma roseira morta pra conseguir bater na janela. Ok, bati na janela e a pessoa me viu. Eu fiz um sinal do tipo "por favor poderia abrir a porta porque eu estou morrendo?", e a pessoa fez um sinal de positivo com a mão. Rá! Finalmente alguém que me entende!
Voltei correndo para porta lateral, onde eu estava morrendo a poucos minutos atrás, e adivinha quem apareceu para abrir a porta e me salvar? O fucking chinês que tinha acabado de me abanar, minutos atrás, quando eu estava gritando por ajuda! Aí o tal desse chinês se aproximou da saída do prédio, pelo lado de dentro, ficou parado entre as portas duplas, me olhando do lado de fora, no meio da tempestade de neve, e começou a falar comigo como se não houvesse nada de errado com a situação:
-- "Rá! Você está trancado do lado de fora! Rá-rá! Você não devia estar aí na rua, nesse frio, sem casaco!"
-- "Eu sei, chinês filho da puta, agora abre essa porta!"
-- (ainda me olhando do lado de fora, parado no meio da tempestade de neve): "Rá! Pelo visto eu não sou o único que veio trabalhar hoje! Aposto que você também tem que cumprir algum prazo de entrega de artigo. Pois é. Eu tenho um prazo até as 6 da tarde, mas acho que vai dar tempo, porque..."
-- "CARALHO, CHINÊS, ABRE A PORRA DESSA PORTA!"
Aí ele abriu a porta, mas continuou falando:
-- "Hei, porque quando você me cumprimentou agora há pouco você não me avisou que estava sem o seu cartão magnético? Eu poderia ter te esperado!"
-- "PUTA QUE PARIU, chinês filho da puta! Eu não estava te cumprimentando, sua anta! Eu estava gritando, correndo no meio da tempestade de neve, congelando, sem casaco, berrando pra tentar te avisar justamente que estava sem meu cartão magnético, e que era pra tu me esperar! Eu quero que tu morra, chinês maldito! MORRA!"
Bom, mas nisso eu vejo um outro chinês chegando no prédio! "Feito! Embora os dois chineses anteriores tenham me decepcionado, esse certamente vai vir aqui me salvar!" O tal do chinês saiu do carro dele e começou a caminhar em direção à porta onde eu estava. Ele estava caminhando, caminhando, da mesma forma como o outro chinês fazia, antes de encontrar sua amiga débil mental, quando daí, no último momento, ele fez uma curva e começou a correr rapidamente em direçao à porta lateral do prédio. Caralho, chinês maldito! Nessa hora eu pensei: "Bom, é agora ou nunca! Eu preciso sair e alcançar ele!" Aí eu abri a porta externa e saí correndo pela rua, na tempestade, sem casaco, com um caderno na mão, tentando não cair, abanando com as duas mãos, chinese style, e gritando de longe:
-- "Chinês, me espera! Eu quero entrar contigo aí por essa porta!"
Aí o chinês olhou pra trás, me viu abanando, e adivinha o que fez? Me abanou de volta e entrou no prédio. PUTA QUE PARIU. Qual o problema com esse povo?! Sério, eu podia estar pegando fogo, em chamas, gritando pra ele me ajudar, e ele ainda assim ia achar que eu só estava cumprimentando ele, ia me abanar e depois ir embora. Povo do inferno.
Bom, então agora eu tinha acabado de conseguir a façanha de me jogar totalmente para fora do prédio, para o meio da tempestade, sem nenhuma perspectiva de conseguir voltar. Fiquei encostado do lado da porta de fora, na neve, em torno de uns 30 minutos.
Eu já estava comecando a morrer quando pensei: "Rá! Já sei! Vou fazer a volta no prédio e ver se eu enxergo alguém trabalhando no primeiro andar. Aí eu só precisarei bater na janela e pedir para eles virem me salvar".
Fiz a volta e, logo na segunda janela, dentro de um dos laboratórios, consegui enxergar um vulto se mexendo. Ótimo! Agora eu só precisava conseguir bater na janela e chamar a tal da pessoa. Infelizmente, entre a janela e a calçada existiam muitos arbustos, sim, porque os americanos adoram colocar arbustos em tudo quanto é canto, e por esse motivo eu tive que escalar uns matos e uma roseira morta pra conseguir bater na janela. Ok, bati na janela e a pessoa me viu. Eu fiz um sinal do tipo "por favor poderia abrir a porta porque eu estou morrendo?", e a pessoa fez um sinal de positivo com a mão. Rá! Finalmente alguém que me entende!
Voltei correndo para porta lateral, onde eu estava morrendo a poucos minutos atrás, e adivinha quem apareceu para abrir a porta e me salvar? O fucking chinês que tinha acabado de me abanar, minutos atrás, quando eu estava gritando por ajuda! Aí o tal desse chinês se aproximou da saída do prédio, pelo lado de dentro, ficou parado entre as portas duplas, me olhando do lado de fora, no meio da tempestade de neve, e começou a falar comigo como se não houvesse nada de errado com a situação:
-- "Rá! Você está trancado do lado de fora! Rá-rá! Você não devia estar aí na rua, nesse frio, sem casaco!"
-- "Eu sei, chinês filho da puta, agora abre essa porta!"
-- (ainda me olhando do lado de fora, parado no meio da tempestade de neve): "Rá! Pelo visto eu não sou o único que veio trabalhar hoje! Aposto que você também tem que cumprir algum prazo de entrega de artigo. Pois é. Eu tenho um prazo até as 6 da tarde, mas acho que vai dar tempo, porque..."
-- "CARALHO, CHINÊS, ABRE A PORRA DESSA PORTA!"
Aí ele abriu a porta, mas continuou falando:
-- "Hei, porque quando você me cumprimentou agora há pouco você não me avisou que estava sem o seu cartão magnético? Eu poderia ter te esperado!"
-- "PUTA QUE PARIU, chinês filho da puta! Eu não estava te cumprimentando, sua anta! Eu estava gritando, correndo no meio da tempestade de neve, congelando, sem casaco, berrando pra tentar te avisar justamente que estava sem meu cartão magnético, e que era pra tu me esperar! Eu quero que tu morra, chinês maldito! MORRA!"
Tá, ok, eu não disse essa última frase. Só falei: "Ah, pois é, seu chinês, infelizmente eu não me dei conta disso na hora! Como eu sou bobo! Mas pode deixar que na próxima em vez que eu estiver preso numa tempestade de neve eu vou lançar um sinalizador de naufrágio para quem sabe tu compreender o que está se passando!"
Ok, infelizmente eu também não disse essa última frase. Mas deveria ter dito. Deveria.
Olha, eu odeio neve. Eu odeio neve com todas as minhas forças. Mas acima de tudo, acima de todos os ódios que eu possa ter desenvolvido contra o clima maldito desse lugar, acima do ódio que eu tenho contra a neve e contra o frio e contra ficar escorregando no gelo e quase quebrar o pescoço, acima de tudo isso, o que eu odeio mesmo são os chineses.
Ok, infelizmente eu também não disse essa última frase. Mas deveria ter dito. Deveria.
Olha, eu odeio neve. Eu odeio neve com todas as minhas forças. Mas acima de tudo, acima de todos os ódios que eu possa ter desenvolvido contra o clima maldito desse lugar, acima do ódio que eu tenho contra a neve e contra o frio e contra ficar escorregando no gelo e quase quebrar o pescoço, acima de tudo isso, o que eu odeio mesmo são os chineses.
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